Após ação contra milícias no campo, polícia investiga grupos que estão comprando fazendas para armazenar drogas

Polícia Civil / Divulgação
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Após uma operação com cerca de 200 policiais ter sido desencadeada na quinta-feira (26) — e que prendeu 12 integrantes de uma facção que tem base no sul do Estado — , a reportagem de GZH buscou entender qual o modo de agir da quadrilha. Após ataques violentos a propriedades rurais, os criminosos ofereciam serviços de vigilância, o que caracteriza a formação de uma milícia, de acordo com as investigações.

Contudo, uma nova investida desses traficantes também está na mira da polícia: a compra ou arrendamento de fazendas, na fronteira com Uruguai e Argentina ou na divisa com Santa Catarina, para guardar grandes quantidades de drogas e ir distribuindo aos poucos em várias cidades gaúchas. Os imóveis são colocados em nome de laranjas.

Produtores rurais demonstram preocupação com esta nova ação criminosa, bem como com a presença de empresas de vigilância não-regularizadas e a insegurança geral no campo. A Polícia Civil também tem identificado a utilização de propriedades rurais para armazenamento e distribuição de drogas.

Investigação
De acordo com o delegado André Mendes, titular da Delegacia de Polícia Especializada na Repressão aos Crimes Rurais e Abigeato (Decrab) de Bagé, os crimes podem ser divididos em dois estágios básicos, envolvendo facções. Inicialmente, na década passada, os grupos agiam no campo para capitalizar o tráfico, realizando roubos. Mas, agora, os criminosos passaram a agir de forma violenta para aterrorizar os proprietários rurais, inclusive com agressões e cárcere privado, para, depois, oferecer serviço de segurança — eles agem da mesma forma que as milícias.

Mendes destaca que as quadrilhas estão montando empresas de vigilância privada de forma clandestina para oferecer monitoramento e segurança logo após os assaltos que eles mesmo realizam.

— Batem de porta em porta, publicam posts nas redes sociais, mas estranho é que as ofertas, conforme as vítimas, ocorreram logo na sequência dos assaltos — diz Mendes.

Quem não aceita é coagido ou novamente assaltado
Desde que a Decrab foi criada, em 2018, a polícia realizou pelo menos quatro grandes operações contra a ação de facções criminosas agindo no meio rural: em Pelotas, Barra do Ribeiro, Pinheiro Machado e Dom Pedrito. Nas duas últimas cidades, as ações ocorreram em setembro e outubro do ano passado. Contudo, os crimes cometidos eram para capitalizar o tráfico. Ocorria roubo de gado, de fertilizantes e em residências rurais.

A partir de 2021, com alguns casos ainda em dezembro do ano passado, as facções evoluíram na forma de agir e passaram a atuar como milícias. Os roubos, que antes eram sem violência, passaram a ter agressões físicas e psicológicas na maioria dos casos. O objetivo era criar pavor entre as vítimas para no dia seguinte oferecer serviço de vigilância.

Neste ano, contando com a operação desta quinta-feira, já são três ofensivas da polícia. A Decrab de Bagé realizou no primeiro semestre do ano uma ação em Barra do Quaraí, na Fronteira Oeste, e outras duas neste mês.

No caso da ação mais recente, a facção tem base em Pelotas e montou uma empresa, a Nova Fronteira, em Capão do Leão. A instituição, considerada clandestina por Mendes, teve a interdição solicitada pela investigação. O estabelecimento estava no nome da companheira de um dos suspeitos procurados.

A facção que atua no Sul não é a mesma que atua em Cacequi. Neste caso, na Região Central, o grupo criminoso tem base no Vale do Sinos.

“Da porteira para dentro, nós devemos ter a responsabilidade”
A contratação de serviços de segurança privada no campo não é uma prática recente, de acordo com o diretor vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado Rio Grande do Sul (Farsul), Fábio Avancini. Por outro lado, ele avalia que a procura por esse tipo de serviço é cada vez mais comum entre os produtores rurais.

— Da porteira para dentro, nós devemos ter a responsabilidade por esse cuidado. Porém, da porteira para fora, o Estado tem o dever de dar a segurança necessária para nosso negócio. Nós somos realistas, não podemos ter um policial na porteira de cada empresa rural. Muitas vezes, o produtor se vê compelido a contratar uma segurança externa. Mas temos de ter muito cuidado com esse tipo de segurança. Ela é regulada? — comenta Avancini.

O diretor vice-presidente da Farsul também destaca a maior organização do crime no campo. Para ele, chamam a atenção o furto de maquinário e defensivos agrícolas nos últimos 20 anos. Se antigamente eram levados pequenos números de cabeças de gado e peças de máquinas agrícolas, hoje são equipamentos como um todo e grandes volumes de insumos, que possuem grande valor agregado.

André Rossi, presidente do Sindicato Rural de Cacequi, município onde ocorreu a Operação Ronda Tirana no último dia 16, afirma que contrata um serviço de ronda legalizada. Esse, porém, não é o caso de todos produtores da região.

— Eu sei de colegas meus que dão tanto para uma pessoa e o cara diz “não se preocupe, sei que no seu campo ninguém vai mexer”. Botam a raposa para cuidar das galinhas — diz.

No sul do Estado, a presença de empresas regularizadas de segurança privada no meio rural diminuiu nos últimos anos. Segundo Hugo Lobato, presidente do Sindicato Rural de Piratini, a presença de companhias do tipo era comum até cerca de três anos atrás, quando pararam de surtir efeito contra os crimes rurais.

Facções adquirindo terras
O diretor de Investigações do Departamento de Investigações do Narcotráfico (Denarc), delegado Carlos Wendt, ressalta que o foco dele é o tráfico, por isso não apura roubos e extorsões. Contudo, tem verificado que as facções agem no meio rural pelo menos desde o início da segunda metade da década passada.

Mais recentemente, segundo o policial, a apuração dos agentes revela compra ou arrendamento de propriedades rurais. Sempre em nome de laranjas, as fazendas são usadas para armazenamento e centros de distribuição de drogas.

— Notamos aquisições de áreas rurais na Fronteira Oeste e na divisa com Santa Catarina. Verificamos que trazem droga de fora do Estado em grandes quantidades, colocam nestas propriedades rurais para depois fracionar e transportar em pequenas quantidades dentro do Rio Grande do Sul — ressalta.

Nota-se também o uso de áreas rurais para cultivo de maconha, com utilização de estufas.

Roubo de gado
Segundo dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP), o ano de 2017, último antes da implementação da Decrab, teve, em média,671 casos de abigeato por mês. Em 2021, com dados disponíveis até o mês de julho, a média mensal é de 410. A redução no número de casos a partir da ação da delegacia especializada também é percebida por produtores rurais.

— Nesse último ano que passou, tivemos um número de ocorrências menor olhando o Estado como um todo. Está surtindo algum efeito esse combate que a Polícia Civil e a Brigada Militar fazem a esse tipo de delito — diz Avancini.

Por outro lado, o diretor vice-presidente da Farsul observa uma “continuidade” no número de casos de abigeato em algumas regiões. De fato, apesar da queda nos números estaduais, alguns municípios apresentam uma preocupante estabilidade.

— Aqui em Cacequi sempre houve o abigeato. Sou a terceira geração da minha família que está aqui na fazenda. Desde o tempo do meu avô existe ladrão de gado, só que aumentou muito — comenta André Rossi.

Cacequi, por exemplo, registrou 56 casos de roubo de gado em 2020 e 59 em 2019 — foram 62 em 2017. Questionado sobre o fato de os números estaduais terem diminuído nos últimos anos, Rossi demonstra incredulidade.

— Isso aí é cíclico. Daqui a pouco fica batido, vão para outro lado e outro lado… Às vezes, acho que a gente cria (gado) de teimoso, sabe? — responde.

Outros municípios pecuaristas registraram aumento nos casos de abigeato. Piratini, por exemplo, registrou 55 roubos de gado em 2020, índice maior do que o dos três anos anteriores.

— Em dezembro, janeiro, roubaram muito na nossa região. A polícia veio forte e deu uma acalmada boa, até em abigeato — comenta o presidente do Sindicato Rural de Piratini, município que registra 24 casos de abigeato neste ano.

Lobato comenta que no ápice dos crimes, em janeiro, produtores do município foram procurados por uma empresa de vigilância que oferecia seus serviços. Ele não soube dizer o nome da companhia.

Crimes no meio rural

  • Inicialmente, ocorria o roubo tradicional. Ladrões agindo para roubar gado ou pertences de residências, geralmente furtos para o próprio sustento
  • Nos últimos 20 anos, conforme polícia, o crime começou a se organizar e houve o ingresso do receptador. Neste caso, aumentaram os roubos de gado e de defensivos agrícolas. Quadrilhas passaram a se organizar e a agir no campo, porque tinham encomendas feitas por receptadores
  • Pelo menos desde o início da segunda metade da década passada, as facções descobriram o campo como uma forma de capitalizar o tráfico de drogas e armas. Passaram a contratar quadrilhas ou designar integrantes para seguir com o roubo de gado e de defensivos agrícolas, mas também o roubo de residências. Levavam carro, eletrônicos, armas, dinheiro, entre outros itens
  • Com a maioria dos casos neste ano, mas alguns em específico em dezembro de 2020, as organizações criminosas intensificaram os roubos, agindo com violência. Com o medo instaurado no meio rural, eles ofereciam serviço de vigilância privada, a maioria envolvendo empresas clandestinas. Para a polícia, são ações de milícias

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Fonte: GZH

 

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