Associações do agronegócio são investigadas pela PF por estimular paralisação de caminhoneiros

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A Polícia Federal (PF) investiga a execução e o financiamento dos bloqueios de rodovias por parte de caminhoneiros, que causam transtornos em mais de uma dezena de Estados. O principal eixo das apurações é que empresários e entidades, sobretudo ligados à produção agropecuária, sejam o motor dos protestos dos transportadores.
Relatórios da PF mencionam que “o setor do agronegócio está pegando ‘carona’ nas manifestações do 7 de Setembro para mobilizar os caminhoneiros a favor da pauta do Marco Temporal (para a demarcação de terras indígenas, em votação no STF) e outros temas do interesse das categorias. Assim, existem diversos piquetes, com tentativas de bloqueios, nas rodovias federais e estaduais”.
As conclusões parciais da PF encontram respaldo em fatos desvelados desde antes do 7 de Setembro, quando o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), acatou pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) e emitiu ordens de prisão, busca e apreensão e bloqueio temporário de contas de supostos envolvidos com a organização de atos antidemocráticos que se valeriam de caminhoneiros para bloquear estradas.
O objetivo seria parar o país e pressionar pelo fechamento ou destituição de ministros do STF e retomar a discussão do voto impresso, já derrotado na Câmara. O movimento não guarda relação com preço do diesel, tabela do frete ou pátios de estacionamento, bandeiras tradicionais da categoria.
“Os investigados, expressamente, declaram o intuito de forçar o governo e o Exército a ‘tomar uma posição’ em uma mobilização em Brasília em prol do voto impresso, (…) bem como exigem, mediante violência e grave ameaça, a destituição dos ministros do Supremo Tribunal Federal, pretendendo coagir, inclusive, o presidente do Senado Federal”, escreveu Moraes, em decisão de 4 de setembro.
Entre os investigados, estão lideranças e entidades do agronegócio, como a Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja) e seu presidente, Antônio Galvan. Também é alvo a seção da Aprosoja de Mato Grosso.
O inquérito do STF já anunciava que dinheiro com origem em produtores de soja seria canalizado para manifestações favoráveis ao presidente Jair Bolsonaro e também a uma “greve dos caminhoneiros”, a ser conduzida por Marcos Antônio Pereira Gomes, o Zé Trovão, um catarinense de Joinville que se intitula líder dos transportadores autônomos. Ele está com ordem de prisão preventiva decretada pelo STF e, mesmo foragido, grava vídeos que estimulam a continuidade da paralisação nos transportes, o bloqueio de rodovias e a coação de autoridades do STF e do Congresso.
Nesta quinta-feira (9), Zé Trovão disse, em um dos vídeos que publica em canal de aplicativo de mensagens, que estava escondido no México e que seria preso em breve. Embora ele tenha manifestado intuito de manter-se em fuga, sua defesa disse que deveria se entregar às autoridades. No país da América do Norte, Zé Trovão encontrou-se com o blogueiro bolsonarista Oswaldo Eustáquio, também investigado no inquérito dos atos antidemocráticos, que tramita no STF.
Recentemente, Zé Trovão gravou um vídeo em que apelava por apoio de Bolsonaro. Ele afirma que o presidente havia feito supostas convocações “desde o começo do ano” e se mostra incomodado com o fato de a Polícia Militar ter removido manifestantes em Brasília após o 7 de setembro.
O prefeito de Cerro Grande do Sul, Gilmar João Alba (PSL), também é citado por Moraes como possível engrenagem de financiamento da mobilização nas estradas.
Ainda nesta quarta-feira (08) Bolsonaro distribuiu um áudio pedindo que caminhoneiros, a quem chamou de “aliados”, não bloqueassem as rodovias, o que teve a autenticidade reforçada depois pelo ministro Tarcísio Gomes de Freitas, da Infraestrutura, já que a veracidade da gravação era questionada. Ambos argumentaram que interrupções de tráfego rodoviário prejudicariam a economia. No canal de Zé Trovão, dezenas de apoiadores de Bolsonaro que acreditavam piamente na estratégia de trancar as estradas até forçar uma ruptura com o STF e o Congresso se declararam frustrados.
O deputado federal Nereu Crispim (PSL-RS) já atuou no ramo do transporte rodoviário e atualmente é presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa do Caminhoneiro Autônomo e Celetista. Na quarta-feira, ele encaminhou ofício ao diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal (PRF) pedindo apoio urgente e diligências das forças de segurança para conter atos de violência e intimidação nas rodovias por parte dos manifestantes.
“Ainda estão acontecendo obstruções de trânsito em estradas federais com madeiras, pedras e pneus e também ameaças à integridade física e danos ao patrimônio com lançamento de pedras contra caminhões de caminhoneiros e transportadores”, relata o documento.
— Quando começou o 7 de Setembro, quiseram colocar os caminhoneiros como bucha de canhão, dizendo que trancariam o país com essas pautas antidemocráticas. Alguns dos que estão nas rodovias nem caminhoneiros são — critica Crispim.
Carlos Alberto Litti Dahmer, dirigente de caminhoneiros da região das Missões e da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística (CNTTL), um dos principais condutores das greves de 2018, diz que o movimento atual é apenas político, destinado a prestigiar Bolsonaro.
— Foi produzido pelo agronegócio, basta ver como as carretas nos bloqueios são ligadas a esse meio. E nem sequer trata de problemas dos caminhoneiros, como frete e combustível — avalia Dahmer.

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Fonte- Gaúcha ZH

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