O júri do caso envolvendo o estupro e feminicídio da adolescente indígena Daiane Griá Sales, ocorrido em agosto de 2021, teve início na manhã desta quinta-feira (13) com a oitiva das testemunhas. No final da noite, o réu foi interrogado, encerrando os trabalhos do dia.
Dieison Corrêa Zandavalli é acusado de estupro e feminicídio de Daiane Griá Sales, e se limitou a responder as perguntas das advogadas de Defesa e perguntas feitas por escrito pelos jurados.
Encontro e Relação com a Vítima
Dieison afirmou que conheceu Daiane na quinta-feira anterior ao crime. Segundo seu depoimento, “saíram, beberam cerveja e tiveram uma breve relação consistente em um beijo”, e, posteriormente, ele teria levado a jovem para o distrito São João, deixando-a em um bar da localidade. Destacou que a jovem informou estar menstruada, o que, segundo ele, afastaria qualquer possibilidade de violência naquele dia. Dieison enfatizou, ainda, que “não sabia que ela era menor de idade”, e que o crime teria ocorrido apenas no sábado. O réu também ressaltou que realizava serviços transportando indígenas, o que o colocava em contato frequente com a comunidade.
Negativas e Divergências no Depoimento
Durante o interrogatório, o acusado negou sua participação na morte de Daiane, afirmando que cedeu material genético acreditando em sua inocência, dizendo:
“Jamais ia pensar que ia ficar um DNA na quinta-feira e iria aparecer naquele dia”
No entanto, quando confrontado com versões anteriores apresentadas na delegacia, Dieison confessou que estava viciado em cocaína e que teria mentido por medo de ser responsabilizado pelos R$ 500,00 que pegou no mercado do Alcione – dinheiro que, segundo ele, havia solicitado para comprar droga para sua então namorada Francieli, e a negativa o teria levado a distorcer os fatos.
Além disso, o réu relatou que, após ir até a barragem para consumir a droga, retornou somente no domingo de manhã. Ele também admitiu ter mentido no depoimento por receio das consequências do uso não autorizado do dinheiro de Francieli, mencionando que seu advogado o teria orientado a manter essa versão.
Pressões e Coerção no Ambiente Policial
Dieison relatou que foi pressionado a confessar. Segundo ele, um dos policiais teria afirmado: “é melhor tu falar, porque a tua casa já caiu, teu companheiro já entregou tudo”.
Ele acrescentou que a autoridade policial teria mostrado fotos do cadáver de Daiane, o que o teria levado a ser induzido a uma confissão. O réu também afirmou ter sofrido agressões físicas e insultos dentro da delegacia, alegando que se entregou porque acreditava não dever nada.
Contradições e Acareação
Em acareação com Lucas, o réu declarou: “Lucas não falou coisa com coisa na minha frente.”
Durante sua permanência na cadeia, Dieison contou que passou por um tratamento para depressão, relatando que “em duas semanas, falhou dois dias que eles não me tiraram de dentro do presídio, indo de uma delegacia para outra, sempre tentando me constranger, ele não queria a verdade, queria me botar medo pra mim assumir uma coisa que eu não fiz”. Segundo ele, desde a prisão, não usou mais drogas.
Reflexões Pessoais e Declaração Final*
Em depoimento, o réu lamentou as perdas pessoais que sofreu, afirmando: “eu sinto injustiça, porque eu podia pelo menos todo dia dar um abraço nos meus filhos, coisa que há quatro anos eu não faço” e acrescentou: “chegou o momento mais esperado da minha vida, perdi família, perdi serviço, perdi tudo, o que eu tinha não tenho mais, única coisa que sobrou foi a cadeia.”
Dieison ressaltou que, no sábado, passou a noite na barragem – a mais de 10 km de distância da Vila São João – e, ao final do depoimento, afirmou de maneira veemente:
“É COMO EU FALEI, EU TÔ AQUI, QUERO JUSTIÇA E NÃO É POSSÍVEL UMA COISA DESSA FICAR ASSIM. TÔ PAGANDO POR ALGUMA COISA QUE EU NÃO FIZ, NÃO VOU NEGAR, USEI DROGA, EU ERA USUÁRIO, CHEGUEI A PERDER MEU SERVIÇO POR CAUSA DISSO. HOJE DÔ GRAÇAS A DEUS DE ME LIBERTAR DISSO, SAIR DAQUI, RENOVAR MINHA CARTEIRA, CONSEGUIR MEU SERVIÇO DE NOVO E VER MINHA FAMÍLIA. ESTOU NAS MAOS DE VOCÊS E QUE A JUSTIÇA SEJA FEITA”
O caso, que mobiliza a comunidade indígena e toda a sociedade, segue sendo acompanhado de perto pela imprensa e pela população, que aguardam por esclarecimentos e a efetivação da justiça.
Esta matéria foi produzida com base nos principais pontos revelados durante o interrogatório, destacando as falas literais do depoimento de Dieison, que permanecem no centro dos debates sobre o caso.
Além do réu Dieison foram ouvidas várias testemunhas no dia de hoje, que trouxeram diversas informações sobre o caso. Para conferir mais sobre os depoimentos das outras testemunhas, acesse nossas redes sociais e confira os boletins que o Observador Regional realizou durante o dia com todas as informações sobre o andamento do caso.
O júri deve retornar os trabalhos nesta sexta-feira (14) pela manhã, a partir das 09h, com o início dos Debates entre Defesa e Acusação.
Observador Regional





















