Terminou nesta sexta-feira (20) a patente exclusiva da farmacêutica Novo Nordisk do princípio ativo semaglutida no Brasil – do qual são feitos os medicamentos emagrecedores Ozempic, Wegovy e Rybelsus. Com isso, a expectativa é de que genéricos e similares mais baratos cheguem, gradualmente, às farmácias do país.
O laboratório, responsável por desenvolver a solução injetável de semaglutida, teve prazo de 20 anos para vender remédios que utilizassem esse princípio ativo. A partir de agora, a patente cai em domínio público, permitindo a fabricação de genéricos e similares, o que aumenta a concorrência e reduz os preços.
Junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) havia, nesta quinta-feira (19), 13 pedidos de registro de remédios contendo semaglutida – 11 sintéticos e dois biológicos – e oito pedidos de registro de remédios contendo liraglutida, cuja patente expirou no ano passado. Destes, quatro estão em análise neste momento: dois de semaglutida e dois de liraglutida.
Não é uma liberação imediata do medicamento, mas o fim da exclusividade. Isso abre espaço para concorrência, mas cada novo produto ainda precisa passar por aprovação da Anvisa
CAROLINA LEÃES
Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
O pedido de registro de farmacêuticas à Anvisa já ocorria antes mesmo da queda da patente porque o registro trata de uma avaliação de eficácia e segurança daquele medicamento. Já a patente trata do direito de exploração do remédio, sem analisar aspectos técnicos e farmacológicos.
Especialistas ouvidos pela Zero Hora afirmam que o surgimento de genéricos e similares que utilizem a semaglutida não acontecerá imediatamente, pois uma série de documentações é exigida pela Anvisa dos laboratórios interessados.
— O que acontece agora não é uma liberação imediata do medicamento, mas o fim da exclusividade. Isso abre espaço para concorrência, mas cada novo produto ainda precisa passar por aprovação da Anvisa antes de chegar ao paciente — explica Carolina Leães Rech, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem-RS).
As medicações ainda passam por testes de validação antes da liberação.
— Para colocar um genérico no mercado, o fabricante precisa fazer testes de biodisponibilidade e bioequivalência, que são testes que validam aquele genérico contra o medicamento padrão. Esses testes, às vezes, tomam tempo e requerem investimentos para serem feitos. A Anvisa também discute preço com os proponentes — relata Rogério Friedman, endocrinologista dos hospitais de Clínicas e Moinhos de Vento e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Em agosto, a Anvisa publicou um edital de chamamento para que empresas com pedidos de registro de medicamentos contendo semaglutida ou liraglutida tivessem análise prioritária pelo órgão. Conforme a publicação, a capacidade de avaliação da Anvisa é de até três pedidos de medicamentos sintéticos e de até três solicitações de biológicos por semestre.
— Eu não acho que, no sábado (21), as farmácias vão estar lotadas de genérico — avalia Friedman.
A tendência, no entanto, é que novos remédios com semaglutida surjam e tenham um impacto significativo nos preços praticados.
— Pela experiência brasileira com outros medicamentos, temos bons genéricos que custam um terço ou um quarto do preço do medicamento original. Então, não tenho dúvida de que os preços vão baixar — projeta o endocrinologista.
Ainda assim, a queda de valores não deve ser abrupta.
— A tendência é de redução de preço com a entrada de concorrentes. Mas não devemos esperar uma queda abrupta no curto prazo, especialmente por se tratar de um medicamento complexo, com tecnologia de produção e aplicação mais sofisticadas — pontua Carolina, que também é professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e chefe do serviço de Endocrinologia da Santa Casa na Capital.
Oferta no SUS
A ampliação da oferta de medicamentos com semaglutida abre espaço para a inclusão de alguma versão desses remédios nos tratamentos disponíveis pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
— O desafio é transformar inovação em acesso real, com sustentabilidade para o sistema de saúde — observa a chefe do serviço de Endocrinologia da Santa Casa.
Em agosto de 2025, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) negou o pedido de incorporação de duas terapias à base de semaglutida e de liraglutida, após cálculo que previu impacto no orçamento do SUS de R$ 4,1 bilhões a R$ 6 bilhões em cinco anos. O valor que foi considerado inviável de ser absorvido.
A obesidade é um problema de saúde pública, quase com característica epidêmica. Então, o Brasil precisa agir para oferecer para a população tratamentos eficazes
ROGÉRIO FRIEDMAN
Endocrinologista
Com o barateamento gradual dos medicamentos disponíveis no mercado, a chance de oferta na rede pública aumenta.
— Com a queda significativa dos preços, acredito que algum desses injetáveis acabe entrando para o rol de medicamentos do SUS, porque são tratamento potentes que funcionam. A obesidade é um problema de saúde pública, quase com característica epidêmica. Então, o Brasil precisa agir para oferecer para a população tratamentos eficazes — destaca Friedman, salientando que, hoje, “o SUS não tem praticamente nada a oferecer para o paciente obeso”.
Mesmo que o medicamento que porventura seja oferecido no SUS for genérico, Friedman afirma que os testes de eficácia e segurança são levados a sério no Brasil, o que significa que, ainda que haja sutilezas no processo de produção de cada medicamento e a eficácia possa variar em cada indivíduo, em geral o país “está bem” no sentido de controle de qualidade de seus medicamentos.
Fonte: Gaúcha ZH






















