Nas fazendas, existe o hábito de marcar o gado com o ferrete, um instrumento de metal que é aquecido até ficar em brasa e depois é prensado contra o couro do animal.
Assim, a dolorosa queimadura com as iniciais do dono identifica o rebanho e organiza o domínio do fazendeiro. Depois desse processo, diz-se que aquele é um gado marcado.
Foi deste conteto, que veio a inspiração para Zé Ramalho criar a expressão GADO MARCADO, ao se referir às pessoas que não pensam, apenas se submetem. Afinal, é isso que o gado faz no campo: apenas obedece. Ainda que inconscientemente.
Assim, Zé Ramalho lançou a música ADMIRÁVEL GADO NOVO em 1979, ocasião em que o último presidente militar tinha assumido o poder.
Nas ruas, continuava a luta incansável pela liberdade de expressão, enquanto na arte misturavam-se, contraditoriamente, sentimentos de cansaço e de esperança.
Saliente-se que o refrão da música faz referência a essa marcação e, também, a um estado de felicidade forçada, porque manipulada e dentro do controle dos líderes de ocasião. Reina e paira no povo a falsa ideia de felicidade e segurança. Eis, Ê, ô, ô, vida de gado Povo marcado, ê! Povo feliz! Ê, ô, ô, vida de gado Povo marcado, ê! Povo feliz! Ôôô, boi
A música é uma forte crítica à exploração do trabalho e à manipulação psicológico/intelectual do povo.
Por oportuno, é, também, uma alusão ao livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. Este livro traz uma história distópica, de ficção futurista, onde um governo central e autoritário se encarrega de manter a população “feliz” durante todo o tempo, evitando qualquer tipo de conflito ou desentendimento.
Dentro dessa “história”, os seres humanos são divididos em castas. E, uma delas, não por coincidência, a mais baixa, é biologicamente estruturada para servir. Para fazer o trabalho pesado sem reclamar e sem sequer tomar consciência de quão injusta é a situação.
Nessa obra, existe uma pílula chamada SOMA. Ela é dada aos cidadãos sempre que alguma dúvida ou insatisfação surgir. Ela é a garantia de que tudo fique sempre sob controle do governo.
Voltando, à música referida, a massa são os cidadãos. Estes, usados como construtores dos projetos que seus líderes têm para o futuro. Nela, temos toda uma população sendo usada como massa de manobra. Assim é, como disse o personagem Regino, quando a música de Zé Ramalho foi usada na novela “O Rei do Gado”, em 1996. Ironicamente, a música alcançou grande sucesso.
Finalizando, com toda essa exploração constante no trabalho, não sobra tempo para pensar. Mesmo assim, existe uma vaga percepção de que algo está errado. Então, no saudosismo dos tempos, ressurge a idéia de que as coisas eram melhores. É assim que o autor demonstra que, ainda, há esperança. A SOMA é associada à ARCA DE NOÉ. Embora, numa referência à uma solução anestésica.
Fica, portanto, a dica. Para pensar e se articular. Para não sermos “gado”. Sim, um ser humano capaz de contribuir para mudanças.
Um grande abraço, e até a semana que vem!
Ieda Maria.























