Há razões para desconfiar de que a OMS não disse tudo o que sabe sobre a origem do coronavírus na China

Ônibus com cientistas da OMS em Wuhan - NICOLAS ASFOURI / AFP

Essa é a pergunta de US$ 1 milhão, que a humanidade se faz. Há até pouco tempo, os Estados Unidos estavam praticamente sozinhos nessa. A desconfiança sobre a alegação do regime chinês, segundo o qual o Sars-CoV-2 nascera no mercado de animais silvestres de Wuhan, era parte da retórica do agora ex-presidente Donald Trump em relação a seu grande rival no século 21. A habitual falta de transparência da ditadura chinesa com temas sensíveis, a perseguição a dissidentes e o crescente descrédito de organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), vitaminavam teorias conspiratórias.

 

O próprio relatório preliminar dos investigadores da OMS, que passaram três semanas em Wuhan, era frágil e não dá as respostas que o mundo exige. Agora que se sabe a íntegra do texto, apresentado na terça-feira (30), há razões para ficarmos com uma pulga atrás da orelha. O que era para ser resultado de uma tão esperada análise em campo, além de não esclarecer as condições em que o vírus surgiu, alimenta mais dúvidas. A montanha pariu um rato.

 

Resultado: agora não são apenas os Estados Unidos a criticarem a OMS e a China, mas também outros 13 países – como Reino Unido, Austrália e Coreia do Sul, além da União Europeia (UE) passaram a pressionar por esclarecimentos. Era sabido que Trump nutria, como nenhum outro presidente, a ambição de tornar a China a inimiga pública número 1 da América, para alimentar sua base ideológica e religiosa. Mas, sob nova administração, não se pode dizer que se trata apenas perseguição trumpiana. Também Joe Biden exige explicações.

 

Há preocupação com o atraso com que foi feito o levantamento (mais de um ano após o surgimento do vírus) e com o acesso limitado a dados e amostras dos casos por parte do regime chinês. Outro problema é que o próprio diretor da OMS, Tedros Adhanom, contradiz as descobertas centrais do estudo, sugerindo que a hipótese de que o vírus escapou do laboratório de Wuhan deva ser investigada, enquanto o relatório diz que tal possibilidade é “extremamente improvável” e não recomenda mais pesquisas sobre essa hipótese.

 

– Embora a equipe tenha concluído que um vazamento de laboratório é a hipótese menos provável isso requer uma investigação mais aprofundada – disse Tedros.

 

A percepção é que nem os próprios investigadores acreditam que essa não é uma hipótese plausível uma vez que o relatório falha em fornecer evidências para descartar essa possibilidade. O texto se atém a quatro maneiras possíveis de o coronavírus ter surgido e conclui que é mais provável que tenha se espalhado para os humanos a partir de um hospedeiro animal intermediário. Mas não responde a perguntas cruciais sobre como essa transmissão aconteceu. Recomenda mais estudos para rastrear os animais vendidos em mercados dentro e ao redor de Wuhan, incluindo entrevistar trabalhadores em fazendas de vida selvagem e testá-los para anticorpos contra o coronavírus.

 

A China tem muito a explicar ao mundo sobre o que se passou lá nos primeiros dias do coronavírus entre nós, como humanidade. Mas ninguém esperava que o regime abrisse suas portas para os investigadores internacionais. Dominic Dwyer, um dos investigadores australianos, disse à Reuters no mês passado que a equipe havia solicitado dados brutos de pacientes que compõem os 174 primeiros casos de Wuhan, em dezembro de 2019, mas que o governo da China se recusou a entregar as informações, fornecendo apenas um resumo. É provavelmente apenas uma parte do que o regime pode ter escondido.

 

Nas quatro semanas em Wuhan, os cientistas sofreram limitações, foram acompanhados de perto por funcionários chineses e pode-se supor que trabalharam em cenários possivelmente maquiados. Ainda que a China diga que trabalha para esclarecer a verdade, a história deixa pouca margem para se pensar que irá cooperar. Também será muito difícil que OMS consiga, sob pressão, realizar um trabalho independente de verificação – diga-se de passagem, não basta ser independente, é preciso parecer ser. A entidade está diretamente envolvida com a crise, criticada como em nenhuma outra situação, por supostamente ter sido leniente com o regime chinês e de ter reagido tardiamente nos comunicados.

 

A verdade sobre a origem do coronavírus não é só uma questão de se contar a história como ela realmente ocorreu – um direito do planeta conhecer e um dever das autoridades esclarecerem. Mas é fundamental para contribuir nos esforços de controle da pandemia – e, a essa altura, quem sabe, para evitarmos uma próxima.

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Fonte: Gaúcha ZH

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