Nunca pensei em ver uma égua entrando no hospital”: conheça Sereia, sucesso como pet terapeuta em Sapiranga

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O casal formado pela analista contábil Bianca Moraes, 32 anos, e pelo representante comercial Vinícius Moraes, 33, dedicava-se aos cuidados da filha recém-nascida Esther. No último dia 3, a família ocupava um quarto do Hospital Sapiranga, na cidade do Vale do Sinos, quando espiaram pela janela e perceberam uma visita incomum. Tratava-se da égua Sereia e da cadela Akira.

— O ambiente hospitalar deixa a gente super tensa. Poder ter contato com um bichinho neste momento de recuperação traz um quentinho no coração mesmo — afirma Bianca.

A família vive em São Leopoldo, no Vale do Sinos. Em casa, o casal tem duas gatas de estimação e adora cavalos, além de estar sempre que possível em contato com o verde e fazendo pescarias.

— Foi bem especial poder ver (os animais). Sem contar a experiência de tocar nelas. Incrível de verdade — acrescenta a mãe de Esther, que veio ao mundo em 1º de julho.

Os dois animais integram o projeto Patinhas e cascos que acolhem vidas, idealizado pela arteterapeuta Rejane Beatriz. Há três anos, a iniciativa ocorre em visitas periódicas aos pacientes da instituição. Nessas ocasiões, as pessoas saem dos quartos, acompanham a chegada dos visitantes de quatro patas pelos corredores, fazem fotos e interagem em um espaço aberto.

A mangalarga e sua batedora

A égua pertence à raça mangalarga marchador. Tem 20 anos de idade, pesa 480 quilos e também é usada para hipismo. A equina gosta de ser abraçada, escovada e de ganhar cenoura na boca. Na tarde gelada da visita, a tordilha trajava touca, caneleiras, capa e tinha o rabo trançado e enfeitado. Também exibia um coração estilizado sobre o lombo. Era o centro das atenções entre internos e colaboradores.

— Ela é uma égua que realmente se doa para as coisas que faz — compartilha a tutora Rejane Beatriz.

Visita começa no Hospital Sapiranga.

Em 2018, Sereia foi adquirida por Rejane no Centro Hípico Porto Palmeira, de Campo Bom, no Vale do Sinos. No começo, a relação entre as duas consistia apenas em montarias para lazer. Rejane já promovia ações de pet terapia com cães, mas tamanha era a docilidade da eguinha que Rejane ousou e decidiu incorporá-la ao projeto.

Também enfeitada para a visita terapêutica, Akira, oito anos, é uma cadelinha shih tzu. Percorre os corredores do hospital como se fosse a batedora da égua — vai na frente, como uma verdadeira abre-alas. Em alguns momentos, é colocada na garupa de Sereia, onde equilibra-se sem dificuldades. Ambas têm crachás personalizados do Hospital Sapiranga.

— Todos os encontros e intervenções têm um objetivo. Elas (égua e cadela) fazem parte do plano terapêutico dos pacientes — explica Rejane, que trabalha há 12 anos no hospital.

Sereia come alfafa e ração com suplemento. Também aprecia frutas e cenouras. Atualmente, as visitas da égua ocorrem de forma quinzenal, enquanto as da cadela são semanais. As visitas em dupla acontecem em ocasiões especiais.

Preparo antes das visitas

A égua precisa passar por uma cuidadosa higienização antes de estar pronta para visitar o Hospital Sapiranga. Cerca de três horas antes do banho, a equina é retirada do piquete onde vive em uma chácara na zona rural de Campo Bom. Nesses momentos, é montada por Rejane e estimulada a caminhar para evacuar e, assim, não correr o risco de fazer as necessidades depois, pelos corredores.

Além do banho, a limpeza inclui deixar as patas de molho e até esterilizá-las. Após o processo de secagem, Sereia é paramentada. Então, é conduzida para o reboque de cavalos. O deslocamento de carro até a instituição leva em torno de 30 minutos.

No estacionamento do hospital há um espaço reservado e sinalizado para o desembarque. Com adereços na cor rosa, Sereia segue Rejane e atrai os olhares por onde passa. Sua marcha pelos corredores irradia o som de ferraduras em contato com o piso frio. Portas se abrem, todos querem ver e tirar fotos da égua. Muita gente se aproxima para acariciar a visitante. Enquanto isso, Akira passa de colo em colo entre os presentes.

— O ambiente hospitalar deixa as pessoas mais tensas, preocupadas e ansiosas. E depois que os pacientes têm o contato com elas, principalmente esses sintomas de ansiedade diminuem. A adesão ao tratamento também melhora. O fato de poderem sair do leito e ter esse contato muda o humor. Os pacientes conseguem trabalhar a afetividade com elas — observa Rejane.

O Hospital Sapiranga existe há 82 anos, e 65% dos seus atendimentos ocorrem pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas também trabalha com convênios. Trata-se de um hospital referência na região.

Segundo a diretora-executiva da instituição, Elita Herrmann, o projeto de pet terapia tem demonstrado resultados positivos.

— Desde o início, percebemos os benefícios que o projeto traz tanto para os pacientes quanto para os nossos colaboradores. Tem uma ansiedade boa pela espera dela (Sereia). Após a saída, fica uma energia gostosa dentro da instituição — atesta.

Desde o início, percebemos os benefícios que o projeto traz tanto para os pacientes quanto para os nossos colaboradores. Tem uma ansiedade boa pela espera dela (Sereia). Após a saída, fica uma energia gostosa dentro da instituição.

ELITA HERRMANN

Diretora-executiva do Hospital Sapiranga

Pacientes surpresos com a docilidade

O motorista Ítalo Ramon, 31, vive em Sapiranga. Estava internado havia cinco dias em decorrência de problemas na vesícula. Ele tirava fotos de Sereia.

— Nunca pensei em ver uma égua entrar no hospital. Foi a primeira vez que vi. Acho que é uma terapia para o pessoal que está mais doente, dá uma animada — diverte-se.

Natural de São Pedro do Sul, na Região Central, e morador da Vila Irma, em Sapiranga, o pedreiro Altamir Gomes, 63, precisou ser internado após sentir dores nas região abdominal. Descobriu que estava com pedra nos rins e precisaria passar por cirurgia. Quando viu Sereia não hesitou: pegou a escova e passou pela pelagem da visitante.

— Foi uma coisa boa — relata sobre a experiência.

A pensionista Teresinha Ivone da Silva, 72, nasceu em Sobradinho, no Vale do Rio Pardo, mas mora em Sapiranga. Foi internada por causa de um princípio de enfarte.

— Agora estou me sentindo bem, agradeço a Deus a cada momento. Não imaginava (ver uma égua no hospital). Eu me criei domando os cavalinhos na colônia. Andava de cavalo por tudo — relembra dona Teresinha.

Grávida de oito meses, a dona de casa Eduarda Gonçalves Moreira, 20, é de Araricá, no Vale do Sinos, e nunca havia tido contato com equinos antes. À espera do nascimento da filha Sofia, estava um pouco receosa do contato com o animal. Porém, ficou impressionada com a docilidade de Sereia:

— Achei incrível. Quando eu cheguei perto da Sereia, ela foi direto na minha barriga.

O auxiliar de farmácia do Hospital Sapiranga Lucas Borba, 18, revela que nunca tinha interagido com um cavalo antes. Estava perplexo com a experiência.

— Ela recebe muito bem a nossa forma de carinho. E isso, querendo ou não, traz uma paz para a gente. É uma mansidão contagiante — conclui.

*Gaúcha ZH-André Malinoski

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