Transparência, gestão democrática e participação dos alunos: o que coloca uma escola pública gaúcha entre as melhores do mundo

Instituição de Novo Hamburgo é finalista de um prêmio que escolhe as melhores escolas do mundo. Fotos: Lauro Alves / Agencia RBS.
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Uma vez por mês, alunos do quarto ao nono ano da Escola Municipal de Ensino Básico (EMEB) Professora Adolfina Diefenthäler, de Novo Hamburgo, ficam sozinhos na sala de aula.
 
As assembleias, como são chamadas essas reuniões, duram até uma hora e são feitas uma vez por mês. Delas, surgem demandas: um tapete novo para a sala, troca de lâmpadas, a permissão de ir ao banheiro sem pedir autorização do professor são alguns exemplos de pedidos nessa conversa. Depois, as solicitações são anotadas em um caderno, que, por fim, é encaminhado à direção.
 
— Nós olhamos e, se há como colocar logo em prática (o pedido), a gente faz. Se são coisas mais complexas, encaminhamos para a conferência escolar — explica a diretora da escola, Andrea Zimmer.
 
A conferência escolar ocorre uma vez por ano, em outubro, e tem a participação da direção, professores, pais e alunos. É o momento no qual são decididas as demandas que serão desenvolvidas no próximo ano na instituição: onde será investido o dinheiro e quais projetos serão conduzidos dentro e fora de aula.
 
Assim, cada iniciativa precisa de aprovação da maioria em uma votação, na conferência escolar. Esse processo, chamado de Gestão Democrática, é o motivo de a escola de Novo Hamburgo estar entre os 50 finalistas no World’s Best School Prizes, premiação internacional que busca identificar, reconhecer e celebrar práticas inovadoras e que tenham impacto na vida de estudantes e da comunidade.
 
A instituição está entre as 10 melhores na categoria Colaboração da Comunidade; outras duas escolas brasileiras, de Pernambuco, estão entre os finalistas. Os vencedores de cada categoria receberão 50 mil dólares (cerca de R$ 250 mil) e serão anunciados em outubro.
 
O trabalho na escola tem sido reconhecido em concursos nos últimos anos. A coordenadora pedagógica da instituição Lea Cristina Borges dos Santos foi uma das vencedoras do prêmio nacional Conectando Boas Práticas, que destaca profissionais da educação básica brasileira, no ano passado. Em 2019, Joice Maria Lamb, também coordenadora pedagógica, recebeu o prêmio nacional de Educadora do Ano.

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Um dia na escola
A reportagem de GZH esteve na escola, que tem 750 alunos e 40 professores, na manhã de terça-feira (14). Ao entrar no pátio, é possível notar que não há pichações, sujeira no chão ou sinais de abandono. Nas paredes internas, pinturas foram feitas por um artista que foi estagiário na escola e que é contratado pela direção para o trabalho. São imagens da natureza, animais, pessoas, balões.
 
— O que mais gosto na escola é que ela é cheia de pinturas. É um destaque que deixa tudo mais bonito. A escola é umas das melhores que temos no município — diz a estudante Nicole dos Santos, 13 anos.
Há dois quadros negros em destaque no pátio, com informações que dão transparência à gestão. Em um deles, a prestação de contas da instituição: o que entrou e saiu de dinheiro no caixa, discriminados por mês, inclusive os centavos. No outro, o aviso sobre a festa junina organizada dias antes, definida como um “sucesso”: “Lucro R$ 8.448,00 que serão investidos em melhorias para a nossa escola!”, diz o recado visível para quem entra no prédio.
 
Desse valor, cerca de R$ 3 mil têm destino: a aquisição de um esqueleto escolar para a sala de ciências onde a professora Claudia Sobral dá aula para alunos do sexto ao nono ano. Não são apenas os estudantes que podem sugerir melhorias na escola, mas todos os envolvidos no processo. Por isso, nos últimos anos, Claudia conseguiu equipar o espaço com armários, bancadas, bancos, um microscópio, para deixar a sala temática, parecida a um laboratório. Há 15 anos na instituição, a professora destaca que o objetivo é fazer com que o aluno se sinta parte da escola.
 
— É uma preocupação nossa fazer o aluno se sentir bem nesse espaço, se sinta acolhido. Isso ajuda na aprendizagem. Temos feito um trabalho coletivo, de anos, com parcerias com professores, pais e comunidade. Todos são presentes e isso faz muita diferença — pontua.
 
A escola recebe verbas do município e do governo federal. No entanto, ações são feitas – como a da festa junina – para arrecadar dinheiro para iniciativas definidas na conferência anual.
 
Iniciativas diárias
A gestão da escola tem preocupação com assuntos que, no início, podem parecer fugir da parte do ensino. Isso é notado com o trabalho feito nos canteiros espalhados pela escola, cuidados que são de responsabilidade dos estudantes. Além disso, quando identificados problemas, como o desperdício de comida, os professores atuam para resolvê-los com uma abordagem dentro da sala. Um dos quadros do pátio mostrava o resultado do momento: 1,6 quilo de sobras de comida naquele dia. “Evite o desperdício de alimentos no refeitório”, pede o aviso, que é acompanhado por aulas com alertas sobre a fome no mundo.
 
O intervalo dos estudantes não é informado por meio de um sinal sonoro, como ocorre na maioria das escolas. Isso não foi pensado para ser assim, de acordo com a direção. É que a aquisição do dispositivo foi “esquecida” no passado. Entre debates para colocá-lo ou deixar como estava, a questão foi votada algumas vezes, mas rejeitada pela maioria dos presentes nas conferências. Assim, os estudantes são os responsáveis por cuidar o início e fim do horário de descanso. Caso não respeitem, o fato é registrado e os pais informados.
 
Mudança em 10 anos
O modo de decidir as ações da escola começou a mudar em 2013, com a ideia de uma gestão democrática focada na ideia de “aprender e compartilhar”. A base da abordagem é em uma lei municipal de 2009. No início, as assembleias eram feitas apenas com professores, mas, seis meses depois, os alunos foram incluídos nas decisões, o que segue até o momento.
 
Há um grupo de professores responsável por conversar com os alunos; cada uma das 30 turmas tem dois representantes. Pais também participam de uma reunião por mês, à noite.
 
Assim, o objetivo é fazer com que nenhuma ação na escola seja feita sem que a comunidade escolar esteja ciente. Além dos destaques e concursos de educação, a escola tem registrado melhora no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb): a nota da instituição saltou de 4.4, em 2005, para 6.2, em 2019, no quinto ano; e de 3.6 para 5 no nono ano, no mesmo período.
 
A diretora Andrea Zimmer relata ter encontrado outro cenário ao entrar para a direção da escola, como vice-diretora, em 2012. Há 10 anos, a instituição convivia com episódios frequentes de repetência dos alunos, vandalismo e até violência. Como exemplo daquele momento, ela cita a depredação dos banheiros, parte da rotina antes, e que não ocorre mais.
 
— Hoje eu não preciso mais gastar tanto dinheiro porque os alunos começaram a cuidar (do patrimônio), perceberam que a escola é deles. Já tivemos muitos casos de agressão no passado, mas isso diminuiu muito. Tem algumas situações ainda, mas é muito raro. Damos liberdade, mas apertamos o cerco quando é preciso — finaliza.

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Nicole dos Santos é aluna do oitavo ano na escola Professora Adolfina Diefenthäler. Fotos: Lauro Alves / Agencia RBS.
Andrea Zimmer está no segundo mandato como diretora da escola. Fotos: Lauro Alves / Agencia RBS.
Escola Professora Adolfina Diefenthäler tem cerca de 750 alunos. Fotos: Lauro Alves / Agencia RBS.
Érica Ferreira estuda desde os cinco anos na escola de Novo Hamburgo. Fotos: Lauro Alves / Agencia RBS.
 
Fonte: GZH

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