Três-passense foi surpreendido pela intensidade do coronavírus e morreu aos 39 anos

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Dançar nos bailes ao som da Banda Rainha Musical era uma das paixões do entregador João Gilberto dos Santos, 39 anos, de Sapiranga. Foi num deles que há quase dois anos conheceu a companheira, a auxiliar de limpeza Iara Penz da Cunha, 48 anos. A outra alegria de João era estar com os amigos e a família. E foi um churrasco, organizado em casa, a última vez em que esteve ao lado dos que amava. No almoço, nove dos 11 convidados testaram positivo para  covid-19 na semana seguinte. Um deles foi João. Ele morreu, vitimado pela doença, 19 dias depois do evento.

Iara conta que o companheiro não acreditava na intensidade de coronavírus. A mulher costumava insistir para o homem, de 1m91cm e 138 quilos, usar máscara e álcool gel. Por estar acima do peso, João fazia parte do grupo de risco e se negava a cumprir as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

João vivia o seu melhor momento, afirma Iara. Recém havia recebido o primeiro salário do emprego numa empresa terceirizada de entregas. Tinha sido contratado depois de anos prestando serviços como chapa. Também estava mais próximo do filho de 12 anos, que morava com a mãe, de quem João Gilberto estava separado há mais de cinco anos. Pai e filho se tornaram grandes amigos, garante Iara.

Emocionada, a auxiliar de limpeza recorda o dia do primeiro beijo do casal, ocorrido num baile, três semanas depois de começarem a trocar olhares no mesmo salão: 19 de outubro de 2018. Viúva havia oito anos, depois de 22 anos casada, Iara não pretendia casar novamente. Mas a simpatia de João Gilberto a conquistou. Entre os amigos, a característica marcante do entregador lhe deu o apelido de Papagaio, pois gostava de conversar e fazer novas amizades.

— Foi amor à primeira vista. Um mês depois, ele já estava morando na minha casa. Eu tinha achado o homem dos meus sonhos. Nós melhoramos a vida um do outro — confessa Iara.

Caseiro, João Gilberto aceitou o pedido da enteada para reunir os familiares mais próximos para um churrasco em casa em 31 de maio, um domingo. Iara conta que nem ele, nem ela, que costumava ser mais precavida com relação ao coronavírus, lembraram da doença na hora de convidar os parentes. Dois dias antes do almoço especial, porém, o entregador contou à companheira que estava com dores no corpo e um pouco de tosse. Ele tomou um chá e seguiu trabalhando.

— No começo, a gente achava que era só uma gripe. Mas, a partir do momento que todos começaram a ter os sintomas, achamos estranho. Uma gripezinha não pega em todos de uma vez — comenta Iara.

No domingo, se sentindo um pouco melhor, João Gilberto preparou o churrasco para os parentes. À tarde, teve a primeira febre, que seguiu nos três dias seguintes. Na mesma semana, nove dos presentes no almoço apresentaram sintomas da covid-19, incluindo Iara e o filho de João Gilberto.

— Na quarta, o menino foi levado pela mãe ao médico e a orientação foi para isolá-lo. No mesmo dia, eu também decidi consultar porque tinha ido ao Centro pagar as minhas contas. Na consulta, o médico disse que eu era suspeita de ter covid-19. Na mesma hora, liguei para o João, que estava com febre e muito pior do que nós, e pedi para ele ir para casa — recorda Iara.

Nos dias seguintes, o entregador parou de sentir fome. Preocupada, a mulher contatou novamente o médico, que os orientou a permanecerem isolados. Iara afirma que o casal procurou assistência médica várias vezes na semana. Ela acredita que faltou sensibilidade dos médicos na hora de analisar a situação do companheiro. Em 6 de junho, já sentindo falta de ar, João foi levado pela mulher à UPA local. Ele foi passado direto para o oxigênio e, na sequência, encaminhado para o Hospital Sapiranga.

— Fizeram um teste em mim e mandaram eu seguir isolada. Na despedida, o João pediu para eu seguir perto do filho deles, caso ele não resistisse à doença. Eu disse que ele era forte e ia voltar. Foi a última vez que nos vimos — lembra Iara.

Em 7 de junho, João Gilberto foi entubado. No período em que o marido lutava para sobreviver, Iara, que se recuperava da covid-19, enviava mensagens positivas a ele via celular. A equipe de enfermagem se encarregava de colocar o aparelho próximo do ouvido do entregador:

— Eu dizia que ele era muito importante e que precisava voltar. Mas, infelizmente, ele se foi.

João Gilberto faleceu na madrugada de 19 de junho. Iara gravou um vídeo conscientizando a população local sobre o perigo da covid-19.

— As pessoas falam que o vírus não existe, que é política. Mas ele existe. As pessoas precisam ter consciência de que o coronavírus vai matar muita gente. Tem pessoas indo nos nossos Facebooks para nos xingar, dizendo que não acreditam. Um pediu para ver o atestado de óbito. Disseram que estamos querendo dinheiro. Mas dinheiro não vai trazer ninguém de volta — desabafa a auxiliar de limpeza.

Natural de Três Passos, João Gilberto passou a infância e adolescência num orfanato em Boa Vista do Buricá. Saiu de lá aos 18 anos para morar com uma tia em outra cidade. Casou jovem com aquela que viria a ser a mãe do filho dele e, depois de separado, costumava frequentar os bailes na região de Sapiranga, onde morava há mais de uma década. Para Iara, dizia que queria ficar em paz e em família. Estava feliz. Iara, que concluiu a quarentena enquanto o marido tentava viver, promete que cumprirá o último pedido dele: seguirá amiga do filho de João Gilberto.

Gaúcha ZH

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