Oficialmente, a campanha ainda não começou, mas a prática de ‘tomar’ apoiadores um do outro já está consolidada entre o vice-governador Gabriel Souza (MDB) e o deputado federal Luciano Zucco (PL). Os dois, que vão disputar o governo do RS, estabelecem, há meses, uma disputa particular dentro da corrida ao Palácio Piratini. E que tem, entre os pontos fortes, desde elogios, até a conquista de aliados e correligionários do adversário, passando por demonstrações explícitas de proximidade. Tudo sob o olhar complacente das direções partidárias.
É uma corrida na qual cada manifestação positiva ao oponente recebe registros entusiasmados do lado beneficiado. Foi assim, por exemplo, na semana passada, quando um trecho do discurso do prefeito de Alvorada, Douglas Martello, do PL, em evento de seu partido e na presença do presidente estadual, o deputado federal Giovani Cherini, foi parar no Instagram do governador Eduardo Leite (PSD). O governador gravou um vídeo para agradecer a fala de Martello, e fixou a postagem, uma collab (publicação conjunta) com o vice, no Instagram.
Disse Martello: “Muita gente não entende por que a gente não faz aqui uma oposição histriônica contra, por exemplo, o governo do Estado. Mas é impossível também não reconhecer que a gente vem tendo um ciclo importante de obras aqui na cidade. Amanhã, inclusive, o governador estará aqui para anunciar mais uma obra. O governo do Estado tem sim feito investimentos importantes aqui em Alvorada.”
A fala positiva de um prefeito do PL teve um sabor especial para a coalizão governista, que vem tentando “cavar”, em diferentes níveis, apoios de gestores municipais de partidos que integram a coligação encabeçada por Zucco. No caso de Martello, foi apenas um elogio. Mas articuladores de Gabriel já começaram a confeccionar uma lista de lideranças locais, com destaque para as do PP, que abriram dissidência na sigla e apoiam publicamente a pré-candidatura emedebista.
Entre elas, estão os prefeitos de Santa Rosa, Caibaté, São Miguel das Missões, Bom Progresso, Bozano e Jacuizinho, além de três ex-presidentes da Associação dos Prefeitos e Vice-Prefeitos do Progressistas, e do ex-deputado federal e ex-presidente do partido no RS, Jerônimo Goergen. O PP é a principal legenda aliada na coalizão de Zucco, e indicou a vice na chapa, a deputada estadual Silvana Covatti.
Foi do PP que saíram, para ingressar no PSD e formar a chapa de Gabriel, os deputados estaduais Ernani Polo e Frederico Antunes. O primeiro é pré-candidato a vice e, o segundo, a uma das vagas ao Senado. A ofensiva da pré-candidatura emedebista sobre o partido é uma espécie de ‘troco’ a uma decisão do PP que tanto o governo Leite como o MDB seguem demonstrando dificuldade de digerir. A de caminhar com Zucco na corrida ao Piratini após ter sido uma das participantes mais importantes e prestigiadas das duas administrações Leite.
A situação é tão esdrúxula que, apesar de o PP formar uma federação partidária nacional com o União Brasil, o que significa, em tese, que as duas legendas são obrigadas a integrar as mesmas coligações, no RS o União Brasil declarou apoio à pré-candidatura do MDB ao governo. PL e PP, por enquanto, tratam a circunstância como irrelevante. Porque, na prática, o União deverá aparecer como integrante da aliança de Zucco nos materiais de campanha. E é na chapa do PL que será acrescido o tempo da sigla na propaganda no rádio e na TV.
Entre articuladores de Zucco, a explicação para os apoios de integrantes do PP ao MDB e para a postura da direção do União Brasil no RS vai além dos laços estabelecidos durante as duas últimas administrações. Internamente, eles creditam as baixas públicas aos vínculos de lideranças regionais com Polo após o racha interno que resultou na saída do parlamentar, e à dependência de prefeituras da assinatura de contratos com o governo.
Palmo a palmo
Se Gabriel mira os prefeitos, Zucco foca, há meses, no conjunto de partidos, em emedebistas com peso e história dentro de sua sigla, e em profissionais que conhecem em profundidade o adversário. Primeiro, ele colocou em curso uma estratégia que costurou com sucesso a partir de afinidades ideológicas, ‘tirando’ da base de Leite e da pré-candidatura governista não apenas o PP, mas também o Republicanos e o Podemos.
Com este mesmo mote, atraiu emedebistas com os quais já mantinha sintonia, como o empresário e ex-ministro Luís Roberto Ponte, e o secretário de Planejamento e Gestão de Porto Alegre, Cezar Schirmer. Ambos integram o conselho político de sua pré-campanha. O grupo tem, entre suas atribuições, o debate e proposição de temas centrais da pré-candidatura. A atividade, até o momento, resultou na decisão da executiva estadual pela suspensão provisória da filiação de Schirmer ao MDB.
Além de Ponte e Schirmer, Zucco não esconde a relação próxima com o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, hoje uma das lideranças mais influentes do MDB gaúcho. O deputado do PL não só indicou a vice de Melo, como participou ativamente da costura que manteve seu partido na coalizão governista da Capital. E, desde o pleito de 2024, os dois vêm estreitando os vínculos.
Tamanha proximidade gerou um momento de constrangimento público ao MDB em abril deste ano, no evento de lançamento da pré-candidatura de Zucco ao governo, após a ampla divulgação de uma foto com ele e Melo abraçados, sorridentes. O MDB reagiu, dando um ultimato interno a Melo. Algumas semanas depois, a esposa do prefeito foi designada para integrar a coordenação política da pré-campanha de Gabriel. Melo ainda se justificou, argumentando que precisava da base para governar e, assim, mantinha com ela boas relações, assinalando que, no primeiro turno, trabalharia para Gabriel. Desde então, diminuiu a exposição pública na companhia de Zucco.
Além de políticos e partidos, a tática do PL também avançou sobre profissionais especializados em política. Foram contratados na pré-campanha de Zucco estrategistas técnicos que, durante anos, privaram da confiança de líderes do MDB e do PSDB, antiga sigla do governador, como Cleber Benvegnú e Tânia Moreira. Entre outros postos, Benvegnú esteve à frente das pastas da Comunicação e da Casa Civil na administração de José Ivo Sartori (MDB) e Tânia foi secretária de Comunicação de Leite.
Completam os pontos de intersecção entre os dois rivais situações que independem das estratégias de um e outro para tentar avançar. São afinidades e contextos locais, como o que envolve o deputado estadual Juvir Costella, e seu filho, Felipe Costella, presidente do Consórcio da Associação dos Municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre, o Consórcio Granpal.
O pai, que deixou a secretaria de Logística e Transportes em abril para concorrer à reeleição, é uma das principais apostas do MDB de Gabriel para a Assembleia Legislativa. O filho trocou o MDB pelo PL de Zucco, e se elegeu em 2024 prefeito de Esteio, coligado com MDB, PSD, PP, Podemos e PRD.





















